Tenho enviado para os museus no projeto do Aluga-se - "Até meio quilo"- a mesma obra : "o diagnóstico da cigarra", mas para cada museu a apresentação da narrativa é diferente. São experiências com o público que estou achando interessante. O texto na Pinacoteca de Santos estava longo e no Mac de Campinas separei em estrofes e as imagens das cigarras desenhei vários tamanhos até uma minúscula cigarra que desenhei com a ajuda de uma lupa. Resolvi colocar a lupa na exposição e achei que o público interagiu mais.
Neste trabalho meu desejo é dificultar a leitura e imagem fazendo uma alusão com a minha deficiência auditiva... eu não escuto tanto quanto você não enxerga este texto...
quinta-feira, 21 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
diagnóstico da cigarra - para "até meio quilo" mac campinas
E você não consegue ler o que está escrito neste texto? Eu também não consigo ouvir tanto quando você não enxerga o que está escrito. Sim, sou surda para sussurros assim como você é cego para letrinhas pequenas como estas. Uma amiga que entende bem do assunto, disse que não sou surda, apenas tenho deficiência auditiva, pois escuto com aparelho de ouvido. Como aquele sujeito que não enxerga sem óculos e não é cego. Aparelho de olhos é óculos e aparelho de ouvido é aparelho de ouvido, nem nome tem.
Aproveito "até meio quilo" para fazer algumas experiências na obra insetos do espelho. As cigarras agora estão desenhadas no papel vegetal em vários tamanhos, como aquelas letrinhas nos exames de vista no oculista. Há uma minúscula cigarra que foi desenhada com ajuda de uma lupa. O texto que falo da deficiência auditiva e visão é o mesmo que fragmentei.
Mas ter aparelho de ouvido é um luxo, custa caro. To ficando surda? Ninguém diz que está ficando cego, sim, depende dos parâmetros. Se você não consegue ler este texto você está ficando cego. Oh sim, posso aumentar as letrinhas e não vai incomodar ninguém, posso aumentar 100 vezes mais e ainda assim não incomoda ninguém. Todos ficarão felizes porque poderão ler, mas tente aumentar o som, o mais alto possível para que eu possa ouvir sem aparelho. Tudo bem, esta letrinha não é normal qualquer ser humano enxergar. Mas insetos enxergam. Eu vi outro dia, um mosquito pousado nas letrinhas. Ele também fica ao pé do meu ouvido, sussurrando, falando e ainda assim não o entendo. Não entendo a fala dos grilos, nem mosquitos e nem cigarras. Eu só consegui entender a cigarra quando eu era criança.. Foi ela quem diagnosticou a minha surdez do ouvido esquerdo. Eu tinha nove anos e quando eu acordei escutei uma cigarra que gritava e virei a cabeça sobre o travesseiro e não ouvi a cigarra. Virei novamente e ouvi a cigarra e comecei a tampar o ouvido com as mãos, ora o direito, ora o esquerdo, ora eu ouvia, ora eu não ouvia e descobri que estava surda do ouvido do lado esquerdo.
Segundo a organização mundial de saúde, no ano de 2005, 278 milhões de pessoas apresentavam perda auditiva moderada a profunda. É muita gente surda no mundo. Só neste ano duas amigas ficaram surdas. Duas amigas que nem se conhecem e eu conheço as duas. Simplesmente, do nada não escutavam mais de um ouvido, ou melhor, passaram a escutar somente um zumbido. Um inseto atormentando o dia inteiro, cada segundo, cada minuto, horas, todos os dias. Deus deve ter achado o máximo quando criou o inseto, tão pequeno e tão potente. Um microchip da natureza que consegue emitir sons de baixa freqüência que o ouvido humano não alcança e são capazes de ouvir melhor que muito de nós, melhor que eu.
As cigarras, por exemplo, se protegem contra o volume intenso de seu próprio canto. Tanto o macho como a fêmea possuem um par de membranas que funcionam como orelhas. Elas são os tímpanos conectados ao órgão auditivo por um pequeno tendão que reage quando o macho canta, dobrando-os para que os sons altos não lhes provoquem danos. Nas cigarras o som se dá pela vibração das membranas do abdômen, os grilos, pelos atritos de suas asas.
Há tantos insetos emitindo sons e nem sabemos, abelhas, gafanhotos, esperanças, mosquitos, grilos, cigarras. Parecem que ficam tentando dizer algo, talvez avisando que uma tempestade, um terremoto ou furacão está chegando e nos não entendemos.
Tem também aquele grilo falante do Pinóquio. Insetos são aquelas vozinhas na nossa consciência, chatinhas de ouvir e que quase sempre não damos ouvidos a elas. Você conhece carrapato pólvora? Pois é, é tão pequenino que ninguém enxerga e vai engordando, tomando seu sangue e você nem percebe. Pequenino como estas letrinhas, menores que estas letrinhas que você não enxerga. Aliás, estas letrinhas podem ser um monte de insetos que você pensa que é um texto, mas não é. Eles estão quietinhos e sua vista embaralha e você pensa que é vista embaralhada e são os insetos se mexendo. Tentando dizer, cuide-se, você não está ouvindo nada. Ou melhor, não está enxergando nada. Seria melhor adotar o braile como caligrafia universal. Assim, surdos, cegos, todos conseguiriam ler. E para lembrar nem todo mudo é surdo.
sábado, 26 de março de 2011
mapa afetivo e possíveis narrativas em exposição no MARP - Ribeirão Preto
Mapa afetivo (foto acima) e P ossíveis Narrativas (fotos abaixo)no MARP -
Museu de Arte de Ribeirão Preto
domingo, 6 de fevereiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
marco - museu de arte contemporânea de campo grande
Obra: Mapa afetivo e Possíveis narrativas
Descrição da obra:
Processo 1: antropologia da memória – ( mapa afetivo)
Desenhos a caneta nanquim e lápis de cor sobre papel arroz, de um mapa da cidade da minha infância. Os primeiros desenhos são fragmentos da cidade que foi nascendo das lembranças parciais só depois consegui juntar e formar a cidade completa.
Processo 2: arqueologia da memória – ( possíveis narrativas)
Colagens, fotografias, desenhos, textos
Tamanhos variáveis
Texto conceitual:
Processo 1: mapa afetivo - antropologia da memória
Queria lembrar a cidade da minha infância desenhando um mapa. Por mais que minha formação como arquiteta tenha me ajudado, eu só consegui executar o desenho do mapa através de fragmentos da memória, lembranças do passado misturadas às lembranças de sonhos (presente) formando um mosaico parcial da cidade.
O que para mim é o reencontro, o reconhecimento, é ao mesmo tempo um paradoxo – a cidade é um complexo de vazios e cheios, lembranças e não lembranças, sons e silêncios, surgindo como um gracejo misturando o real e o irreal, a realidade e a imaginação, para no final criar uma cidade autêntica.
O início de todo o processo foi a lembrança de três elementos que me marcaram profundamente e que sonho até hoje: o Rio, a Casa azul e a Árvore.
A Casa, como diz Gastón Bachelard: “ o ser abrigado vive a casa em sua realidade e em sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos” . A Árvore que existia na casa, uma acácia amarela que se tornou um personagem para a cidade e minha família, é a raiz, a memória. E o terceiro elemento, o Rio, que eu vejo como a passagem do tempo, o caminho a percorrer.
Os primeiros desenhos continham somente esses elementos. Às primeiras lembranças foram somadas outras, e outros desenhos foram acrescentados, cada um maior e mais completo que o anterior. Como em um travelling conematográfico, aos poucos a paisagem e sua história vai se formando diante do expectador-leitor. Expectador-leitor sim, porque ao processo plástico, vem somada à experiência literária, ao sopé da imagem, como nos letreiros de filmes, ou nos livros infantis do século XIX.
A idéia é o senso comum universalmente compartilhado, pois a cidade conserva o essencial, o modelo, a repetição não só como objeto cidade, mas também como valores. Ela pode passar por várias interpretações, quando o outro que a vê se identifica com ela através de outras faculdades e de outros valores morais e estéticos. Não importa minhas lembranças pessoais, mas a memória compartilhada e mutável.
Processo 2- possíveis narrativas – arqueologia da memória
Iniciei uma pesquisa através de fotografias da família, arquivos históricos, textos em jornais, cartas, pesquisas na internet. A idéia era documentar os fatos que na minha memória não sabia se eram reais ou não. Também não me importa se são reais ou não, apenas quero compartilhar estes documentos congelados, prestes a serem jogados em lixeiras virtuais e reais. Reciclar, reaproveitar o lixo das memórias vividas e compartilhadas. Demonstrar quão efêmera e passageira é a vida e só tem sentindo quando criamos narrativas, quando a reinventamos. A arte é um suporte.
tijuana - feira de arte impressa
pagina original - impressão, desenho e colagem sobre papel reciclado - 21 x 15
pagina itinerante - tiragem com 61 cópias
sobre livros - livro de artista
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